Por: Alexandre Giesbrecht

Ontem mesmo eu estava folheando uma Sports Illustrated de mais de três anos atrás, que eu achei por acaso em um sebo próximo ao Bar Léo, em São Paulo. Havia nela uma reportagem sobre como Bill Wirtz estava — e ainda está — destruindo o Chicago Blackhawks. Uma das fotos tinha como legenda: "Tendo se livrado de seus melhores jogadores para economizar dinheiro, o Chicago é um time de jovens, como o ponta novato Travis Moen."

Na hora, eu me lembrei que esse cara hoje está nos Ducks. Pensei: "Ei, esse cara tem chance de ganhar uma Copa Stanley nos próximos dias, já que está nos Ducks!" Depois do jogo 1 contra os Senators, ele não só tem chance como sua participação foi decisiva, já que, como você pode notar na ficha técnica ao lado, foi dele o gol da vitória do time de Anaheim, a menos de três minutos do fim do jogo.

O destino tem mesmo dessas coisas.

Mas, mais que a coincidência, Moen, um distribuidor de trancos esforçado, foi também um herói improvável no primeiro jogo das finais da Copa Stanley. Mais provável seria um dos goleiros. Mas pouco se falou deles depois do jogo, mesmo tendo ambos sido objeto de dissecação por parte da imprensa, já que os dois foram responsáveis diretos pela classificação de seus respectivos times às finais.

Isso mesmo depois de Jean-Sébastien Giguere, do Anaheim, ter tido uma boa seqüência de defesas no fim do terceiro período que praticamente selou a vitória. Como os Senators não pressionaram muito mais que isso, Giguere acabou caindo na categoria dos que não fizeram mais que a obrigação.

Talvez o único goleiro de quem se falou depois do jogo tenha sido justamente um ex-goleiro. Kelly Hrudey, nas redes do Los Angeles Kings em sua única participação nas finais da Copa Stanley (quando perderam para o Montreal em 1993), hoje é comentarista da CBC, a maior emissora do Canadá, e, pouco antes de o terceiro período começar, proclamou que os Sens segurariam sua vantagem de um gol e iriam vencer o jogo.

Isso é que é língua comprida.

Não que ele não tivesse bons motivos para acreditar nisso. Ao longo destes playoffs, os Senators vinham sendo um time que sabia jogar com a vantagem, um time que dificilmente jogava mal por dois períodos seguidos — e os Sens já tinham jogado mal na segunda metade do primeiro período e durante todo o segundo.

Por mais estranho que possa parecer, o mesmo time que vinha de um descanso de dez dias cansou-se nos últimos 20 minutos. Cansou-se, tomou a virada e perdeu o jogo. Pior ainda: sofreu tudo isso nas mãos de um time que demonstrou tudo que os Senators foram nos últimos quase dois meses. O fogo desta vez estava nos olhos dos Ducks — eu não poderia começar a falar desta final sem usar esta metáfora, que tanto usei nos últimos tempos.

O fogo estava nos olhos, por exemplo, de Moen, que deu o último quac do jogo no finzinho. Estava nos olhos até do geralmente blasé Rob Niedermayer, que deu a assistência para o gol de Moen e foi consistente durante todo o jogo, não só no ataque, mas na defesa também, algo bastante raro em sua carreira. Do lado canadense a linha principal foi dominada a ponto de quase não se perceber sua presença no gelo.

Enquanto os Sens perdiam o disco a torto e a direito, os Ducks jogavam um hóquei responsável. E físico. Talvez os Senators tenham se acostumado ao jogo dos Sabres, que não distribuíam pancadas para todo lado, confiantes que estavam em seu talento.

Tantos trancos absorvidos devem ter feito mal àquele ponto no cérebro dos Senators que lhes dava uma capacidade sobre-humana de se aproveitar dos erros adversários. Os Ducks meio que tentaram perder o jogo com uma série de penalidades estúpidas, mas seus adversários não souberam se aproveitar disso. Quer dizer, até fizeram dois gols em vantagens numéricas, mas a vantagem de dois homens que tiveram a partir do sétimo minuto do segundo período poderia ter sido crucial para uma importante vitória fora de casa, mas acabou sendo importante para restabelecer o moral dos Ducks.

Apesar de tudo isso, uma coisa ficou clara: os times são parelhos. Se os Sens voltarem a jogar com alguma garra, e é difícil que eles tenham se esquecido de como fazê-lo, não há motivo para pensar que a séria final não será tensa e disputada. E longa.

Alexandre Giesbrecht, 31 anos, viu ao vivo um de seus amigos mais antigos ganhar uma EcoSport em um programa de televisão que irá ao ar no fim do mês.
Caitlin M. Kelly/The Press-Enterprise
O improvável herói Travis Moen comemora o seu gol com os irmãos Niedermayer.
(28/02/2007)
28/05/2007 00      
Ottawa 1 1 0 2
Anaheim 1 0 2 3
PRIMEIRO PERÍODO — Gols: 1. Ottawa, Mike Fisher 4 (vantagem numérica) (Andrej Meszaros, Mike Comrie), 1:38. 2. Anaheim, Andy McDonald 6 (Teemu Selanne), 10:55. Penalidades: S. Niedermayer, Anh (high sticking), 0:53; D. Heatley, Otw (tripping), 2:34; R. Jackman, Anh (roughing), 14:14.
SEGUNDO PERÍODO — Gols: 3. Ottawa, Wade Redden 3 (vantagem numérica) (Daniel Alfredsson, Jason Spezza), 4:36. Penalidades: W. Redden, Otw (hooking), 0:59; R. Getzlaf, Anh (cross check), 3:52; F. Beauchemin, Anh (tripping), 6:34; S. Pahlsson, Anh (slashing), 6:59.
TERCEIRO PERÍODO — Gols: 4. Anaheim, Ryan Getzlaf 6 (Corey Perry, Ric Jackman), 5:44. 5. Anaheim, Travis Moen 5 (Rob Niedermayer, Scott Niedermayer), 17:09. Penalidades: C. Schubert, Otw (slashing), 6:37; A. Meszaros, Otw (interference), 10:03; S. Niedermayer, Anh (hooking), 13:08; C. Pronger, Anh (holding the stick), 19:16.
CHUTES A GOL
Ottawa 3 10 7 20
Anaheim 8 10 14 32
Vantagem numérica: OTW – 2 de 7; ANH – 0 de 4. Goleiros: Ottawa – Ray Emery (32 chutes, 29 defesas). Anaheim – Jean-Sébastien Giguere (20, 18). Público: 17.274. Árbitros: Paul Devorski, Dan O'halloran.
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Página publicada em 29 de maio de 2007.