Quando os Oilers ganharam a Copa Stanley em 1990, muitos já previam que aquele era o fim de uma grande di-nastia, cujos jogadores já estavam mais velhos ou já ti-nham ido embora, como fora Wayne Gretzky dois anos antes. Mas eles chegaram às duas finais de conferência seguintes, o que provavelmente fez muitos dos que pre-viram o pior rever seus conceitos. Os que não os reviram puderam se deliciar com sua "bola de cristal" quando os Oilers desceram ladeira abaixo, chegando a ficar seis anos fora dos playoffs e eternamente confinados à meta-de de baixo da liga, o que garantia uma vaguinha nos playoffs aqui e ali.

Mesmo depois que a NHL instituiu o teto salarial e equilibrou um pouco o jogo, no começo desta temporada, os Oilers ainda pareciam distan-tes daqueles times dos anos 80. Poucos previam sequer que eles che-gariam aos playoffs. Pois chegaram. Aos trancos e barrancos, mas chegaram. Supostamente, para uma campanha curta: como meros oi-tavos colocados no Oeste, seriam eliminados facilmente pelos donos do Troféu dos Presidentes, o Detroit, na primeira fase.

Ledo engano. Cada erro dos Wings era transformado numa chance de gol do Edmonton, e muitas dessas chances eram convertidas em gol, enquanto Dwayne Roloson parava quase tudo lá atrás. Veio a surpre-endente classificação, para pegar um San Jose embalado pelas últimas semanas da temporada regular, quando foi um dos melhores, senão o melhor time da liga. Ali acabaria o sonho dos Oilers, é óbvio, principal-mente depois das vitórias dos Sharks nos dois primeiros jogos.

Não tão óbvio assim. A partir do jogo 3, cada erro dos Shaks era transformado numa chance de gol do Edmonton, e muitas dessas chances era convertidas em gol, enquanto Dwayne Roloson parava quase tudo lá atrás. (Soa familiar?) Mais uma surpreendente classifi-cação, para pegar aquele que era o time mais queste naquele instante, o Anaheim, que vinha de uma convincente varrida contra os Avs, quando sofreram uma média menor que um gol por jogo. Fim do sonho canadense, certo?

Errado. Cada erro dos Mighty Ducks era tranformado numa chance de gol do Edmonton, e muitas dessas chances eram convertidas em gol, enquanto Dwayne Roloson parava quase tudo lá atrás. Agora a classi-ficação deu o direito de disputar as finais da Copa Stanley.

Ainda familiar, não? Claro. Poucos times na história conseguiram repetir tão bem por tanto tempo um plano de jogo como estes Oilers. Houve performances mais consistentes de outros times até, mas elas duravam um período, um jogo no máximo. Agora, não. Apesar de um ou outro período ou jogo de desatenção, estes Oilers conseguem manter um pa-drão que está a quatro vitória de dar a eles a maior zebra de todos os tempos.

Maior zebra — Eles são o primeiro time a terminar a temporada regular em oitavo lugar na conferência e conseguir uma vaga nas finais da Copa Stanley — já eram o primeiro a chegar às finais de conferência. Eles só não são o time mais mal classificado na liga a chegar às finais. O Minnesota North Stars de 1991, terminou a temporada regular como 16.º (sétimo no Oeste, mas classificado para os playoffs como quarto na Divisão Norris), mesma colocação do Carolina Hurricanes de 2002 (que entrou como terceiro no Leste por ter vencido a Divisão Sudeste). Estes Oilers foram o 14.º melhor time na temporada regular, assim como o Vancouver Canucks de 1994 (sétimo no Oeste). Nenhum dos times citados ganhou a Copa Stanley. (A.G.)

Apesar do plano de jogo dando certo quase que o tempo todo, não foi um caminho fácil o que os Oilers tiveram de percorrer para chegar até aqui. Especialmente a última fase.

Não houve um único jogo das finais do Oeste que não tenha sido domi-nado pelos Ducks. Em nenhum desses jogos os Oilers chutaram mais a gol que o adversário. Mas, para compensar, só em um jogo os Ducks jogaram com mais raça e vontade que os Oilers. Não que tenha faltado raça e/ou vontade aos comandados de Randy Carlyle, mas o que estes Oilers têm desses ingredientes é simplesmente algo raro. É possível, até provável, que contra qualquer outro time o Anaheim tivesse garan-tido a sua vaga sem muitas dificuldades.

Como explicar que um time que não vinha tendo problemas ofensivos tenha marcado apenas um gol em cada um dos três jogos disputados em casa na série? "Foi uma série estranha nesse sentido", tentou expli-car Scott Niedermayer depois do jogo, sem sucesso.

O goleiro Jean Sébastien Giguere, que desde o jogo 6 da primeira fase estava na reserva de Ilya Bryzgalov, voltara ao gol dos Ducks no jogo 4. Como ele ajudara na vitória, embora não tenha sido decisivo nela, por que não mantê-lo para o jogo 6? Foi o que Carlyle fez. Deu certo, no sentido de ele ter feito 23 defesas em 25 chutes. O problema é que seus companheiros de time não fizeram mais de um gol. Mesmo tendo 11 oportunidades de vantagem numérica (converteram uma delas). Is-so sem falar nos três minutos de seis-contra-três no fim do jogo, quando, depois de tirar Giguere, pressionaram Roloson por todos os ân-gulos.

No total da série, os Ducks converteram apenas 3 de 39 chances em vantagem numérica. A equipe de desvantagem numérica dos Oilers li-dera estes playoffs com um aproveitamento de 88,6%. Uma jogada em especial no jogo 5 reflete não só esse domínio, como também uma ou-tra faceta da série, o duelo entre a principal peça defensiva de cada time.

Lá pela metade do segundo período, com os Oilers já na frente por 2-1 e tentando matar uma penalidade, o onipresente Chris Pronger acabou com uma perigosa jogada de três-contra-dois ao cortar um passe de Niedermayer. Na série toda, enquanto Pronger foi uma presença efetiva no ataque e na defesa por boa parte dos jogos (só no jogo 5, foram mais de 30 minutos no gelo), Niedermayer pouco apareceu e estava estranhamente relutante em chutar a gol.

Talvez ele estivesse pensando algo como "De que adianta chutar a gol se o cara [Roloson, no caso] pára tudo?". É impossível que ninguém nos Ducks estivesse pensando isso, tamanha era a vantagem nos chutes a gol, que não se refletia nos gols marcados.

Vantagem nos chutes a gol — Alguém consegue explicar um detalhe? Durante a temporada regular, os Oilers foram o time que menos sofreu chutes a gol, com uma média de 25,5 por jogo, e sofreram para se classificar aos playoffs. Agora, rumo à sua primeira final de Copa Stanley em 16 anos, estão sofrendo 35 chu-tes a gol por jogo, segunda pior média entre os 16 times que se classificaram para os playoffs. "Incompreensível, não é?", opina Craig MacTavish. "Eu passei algum tempor pensando nisso." (A.G.)

Com todo esse domínio, não são poucos os jogadores e torcedores que estão dominados por pensamentos que começam com "E se..." e termi-nam com um ponto de interrogação. Este ano estava com toda pinta de que apagaria a decepção do jogo 7 das finais de 2003, quando Martin Brodeur acabou com o sonho de um título inédito. Depois das duas primeiras fases, a confiança da torcida foi alçada a níveis ainda maiores que três anos atrás.

Mas, apesar do desapontamento pela eliminação, o clima no vestiário após o jogo 5 não era dos piores. Teemu Selanne colocou as coisas em perspectiva: "Ninguém morreu; isto é apenas hóquei." É verdade. Doeu, mas continua sendo apenas hóquei.


...E SE...? Teemu Selanne é a imagem da decepção dos Ducks, que sabem que poderiam ter ido mais longe (Jeff Gross/Getty Images - 27/05/2006)

E tem mais: a derrota veio no que promete ser apenas o início de uma fase dourada para o time californiano. Quando o gerente geral Brian Burke se livrou dos veteranos Sergei Fedorov, Keith Carney, Sandis Ozolinsh e Petr Sykora durante a temporada, parecia que estava jo-gando a toalha, mas a ascenção de jovens jogadores como Corey Perry, Joffrey Lupul, Chris Kunitz e Ryan Getzlaf dá muitas esperanças à torcida para as próximas temporadas.

"[O futuro] parece brilhante no papel, mas você tem de vivê-lo", avisa Carlyle. "É nossa responsabilidade como comissão técnica fazer com que eles melhorem cada vez mais, porque sentimos que, com nossos jogadores mais jovens ganhando esta experiência, eles terão o que é necessário para continuar essa evolução."

Se tudo correr como a diretoria dos Ducks espera, esses jovens forma-rão o núcleo de um time vencedor por muitos anos. Isso acontecendo, as lágrimas desta última semana terão servido como um grande apren-dizado.

Os Sabres lutaram contra seus próprios limites, impostos pelas se-guidas contusões à sua defesa (leia também artigo de E.M. Swift sobre a, por assim dizer, Maldição de Buffalo). Os Hurricanes fizeram valer a força de seu elenco e ainda contaram com a perene raça de Rod Brind'Amour, o capitão que decidiu o jogo 7.

E, assim teremos o Carolina nas finais da Copa Stanley, para decidir o título contra os Oilers. O segundo melhor time do Leste na tempo-rada regular contra o oitavo melhor do Oeste. E, ainda assim prome-te ser uma série equilibrada, tal como foram as duas finais de con-ferência.

Os Canes contam com um goleiro, o novato Cam Ward, que se mos-trou capaz durante praticamente toda a campanha nos playoffs, mas que ainda tem muito a provar. Uma Copa Stanley seria sufici-ente. Ele teve grandes momentos na série contra os Sabres, espe-cialmente no jogo 6, quando ele quase ganhou a partida sozinho — tivesse ele contado com ajuda de seus colegas atacantes, os Canes teriam resolvido a parada ali mesmo, mas não foi tão consis-tente durante a série toda, tendo sido substituído por Martin Gerber para o jogo 4 e início do jogo 5.

Doug Weight tem se mostrado uma excelente contratação: na Carolina do Norte, ele não tem a obrigação de ser a estrela que carrega o ime nas costas; ele tem o apoio de outros jogadores que podem produzir tanto quanto ele e suprir as necessidades do time quando preciso Foi exatamente isso que aconteceu no jogo 7, quando ele empatou a partida no início do teceiro período. Uma desvantagem no placar que se estendesse por mais algum tempo poderia seer extremamente prejudicial às pretensões dos Canes.

Em suma, se as duas finais de conferência foram um espetáculo de times coletivos e entrosados, podemos esperar exatamente o mes-mo das finais da Copa Stanley. E, esperamos, o mesmo estilo aberto de jogar, extremamente agradável de se assistir. (A.G.)


Alexandre Giesbrecht, 30 anos, realizou o sonho da casa própria.
MURALHA Dustin Penner não consegue vencer o goleiro Dwayne Roloson, que teve a ajuda de Jason Smith (Jeff Gross/Getty Images - 27/05/2006)
NEM PARECE CAMPEÃO A superstição manda que Jason Smith não levante o Troféu Campbell, dado ao campeão do Oeste (Harry How/Getty Images - 27/05/2006)
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Página publicada em 2 de junho de 2006.