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25 de abril de 2003
D4, Os Patos Poderosos: a vingança!

Por Eduardo Costa

Os Patos Poderosos, (1992). Com Emílio Estevez, Lane Smith, Heidi Kling. Um advogado (ex-jogador de hóquei) tem que cumprir serviço comunitário treinando um grupo débil de pequenos jogadores de hóquei. Desinteressado no princípio, ele se anima após algumas partidas, depois recruta um par de bons jogadores e o time se torna "Os Patos Poderosos".

D2: Os Patos Poderosos, (1994). Com Emílio Estevez, Kathryn Erbe e Michael Tucker. Os Patos têm a chance de jogar em uma competição internacional onde representam os EUA. Participação do "The Great One", Wayne Gretzky.

D3: Os Patos Poderosos, (1996). Com Emílio Estevez, Jeffery Nordling, Joshua Jackson. Os Patos ganham uma bolsa de estudos com chance de jogarem hóquei em uma escola particular de elite.

D4: Os Patos Poderosos, (2003). Com Jean-Sebastien Giguere, Keith Carney, Steve Thomas, Paul Kariya. Assim como no primeiro filme, alguns jogadores foram adicionados aos Patos Poderosos e mais uma vez eles se superaram, dessa vez eliminando uma equipe bem mais forte. E também meio arrogantes — incluindo sua orgulhosa torcida — e com jogadores bem pagos — gastos próximos a US$ 70 milhões por ano.

Todos os roteiros de qualidade duvidosa, mas esse último nem Walt Disney teria feito melhor. E é o único baseado em fatos reais. Não se trata de mais uma alucinação hollywoodiana ou mais uma idéia infeliz da Disney. Nesse roteiro há tudo que um filme pode oferecer: um herói, atores coadjuvantes, vilões, um diretor astuto, entre outras coisas.

Como em todo bom filme, temos o herói, o ator principal. Por mais sorte que tenha tido ou falta de capricho nos chutes da equipe adversária, um goleiro que defende 165 de 171 chutes não pode deixar de ser considerado o "mocinho" da série. Giguere frustrou os Red Wings nas quatro partidas. Sem nenhuma experiência em jogos de playoffs, o goleiro de 26 anos parou uma equipe que possui quatro jogadores que já marcaram 500 ou mais gols na carreira e que teve o maior número de jogadores com duplo dígito em pontos na temporada regular.

E, novamente, como em todo bom filme, precisamos daquele momento onde prendemos a respiração e que invariavelmente serve de trailler para a divulgação do mesmo. Veja a foto que ilustra essa coluna: um disco perdido na frente da área de Giguere na última partida da série. Os tacos de Shanahan, McCarty e Fedorov acertaram a trave, o goleiro, uma pilha de defensores... a seguir tivemos cotoveladas e empurrões. Após o caos, eis que emerge da pilha de corpos Giguere, sem sua máscara, mas com sua luva erguida em triunfo e nela o disco. Há quase um ano atrás um goleiro bem mais conhecido tentou fazer algo parecido, e ao errar deu aos Wings a chance de continuar vivo na vitoriosa caminhada rumo às finais. Dessa vez foi negada a chance de continuar sonhando. É verdade que poucos minutos depois Fedorov deu uma sobrevida aos Wings — contando com a fundamental "ajuda" de Niclas Havelid —, mas não era pra ser.

A vinda de Giguere para os Ducks não poderia ter sido mais casual. Na época, o então gerente geral Pierre Gauthier ligou para Craig Button, recém-eleito GG do Calgary Flames, para felicitá-lo por conseguir o emprego. Era ano de expansão e os Flames tinham decidido que não poderiam proteger todos os seus goleiros. Button mencionou que Giguere estava disponível. Gauthier perguntou para os olheiros dos Ducks se Giguere valeria uma escolha de segunda rodada. Apressadamente, eles disseram que sim. Destino.

Mas o que seria do mocinho se não existissem os fiéis escudeiros, os atores coadjuvantes? Um deles tem sido coadjuvante nessa franquia há muitos e muitos anos. Steve Rucchin foi o responsável pelo "The End", um gol que será lembrado pelos torcedores de ambas as equipes daqui a um ano, três, uma década ou até quem sabe pelo resto de suas existências. Sem exageros. Um gol que premia o que Rucchin representa para a organização.

Outro coadjuvante de luxo foi o defensor Keith Carney, apontando por alguns companheiros como o MVP dos Ducks na temporada regular. Foi o próprio Carney que iniciou a jogada do fatídico gol ao interromper uma ação adversária. Ele continuou na corrida rumo ao gol adversário como se fosse Pavel Bure. Rucchin usou sua velocidade para bater Mathieu Schneider. Sua tacada foi desviado por CuJo, mas Carney pegou o disco atrás da meta, no lugar que ficou conhecido como escritório de Wayne Gretzky, mandou para Rucchin pegar de primeira e vencer CuJo. Agora é escritório de Keith Carney! Absurdo? Bem, absurdo é levar gol de um jogador chamado KROG. Sim, sei que é um detalhe fútil, tanto faz o nome do cara, mas o conceituado colunista do Detroit Free Press, Mitch Albom, não aceita, ninguém em Michigan aceita e eu também não! KROG?! Juntando isso a "Quack" e "Sweep" temos uma combinação bizarra de palavras para aturar dos rivais por um bom tempo.

Deixando de lado os heróis e indo para o outro lado da moeda, afinal, como todo filme que se preze, precisamos de vilões. A torcida dos Ducks tinha seu anti-herói predileto em Chris Chelios, que durante anos e anos atormentou o mais querido Mighty Duck desses dez anos de existência da franquia. Paul Kariya finalmente se vingou. Eleito o maior cavador de penalidades da liga por Chelios pouco antes dessa pós-temporada e tendo levado murros, sem revidar, do defensor desde a época que o mesmo defendia as cores dos Blackhawks, é possível imaginar o que Kariya sentiu ao apertar a mão de Chelios no tradicional cumprimento entre perdedores e vencedores que marca cada final de série de playoffs na NHL. Nos três primeiros jogos dos playoffs, Chelios esteve no gelo no momento em que os californianos marcaram o gol da vitória.

Os torcedores dos Wings escolheram outro vilão. Por mais que alguns poucos tentem defender Curtis Joseph, ele foi contratado para fazer a diferença (recebe muito bem pra isso), e levar cinco gols defensáveis numa série complicada, onde todas as partidas foram decididas por apenas um gol, é pedir para a já conturbada relação "torcida dos Red Wings x goleiros da franquia" se tornasse ainda mais insuportável.

Ah! E ele saiu dos Maple Leafs para tentar vencer a Copa Stanley atuando em uma equipe mais competitiva. Nada tão condenável, afinal, Denis Savard, Dominik Hasek e Ray Bourque já fizeram o mesmo, mas depois desta vai ficar difícil para Joseph. Ah! O Toronto ainda está na briga — até o fechamento deste artigo perdia a série contra os Flyers por 3-2 —; já imaginou Belfour levando a equipe às finais? Seria caso de CuJo arrumar as malas e se mudar para a Groenlândia. Ou então passar a disputar algum tipo de jogo em que dar rebote seja o principal objetivo.

Não poderia deixar de mencionar o "diretor" Mike Babcock. O plano de jogo de Anaheim incluiu marcação forte nos defensores do Detroit já dentro da zona defensiva dos Wings. Exercendo pressão cedo neles e evitando uma coisa que os defensores dos Wings fazem tão bem, que são aqueles passes que cruzam o gelo para chegarem até os asas, que utilizavam sua velocidade pela zona neutra para furar o bloqueio. Com esses passes chegando imperfeitos, ou até mesmo não chegando, os Ducks mataram uma das principais armas dos atuais campeões. Tomas Holmstrom atrapalhando a visão de Giguere? Não, Carney não deixou. J.S. Giguere pôde ver a maioria dos chutes desferidos pelos jogadores dos Wings. Outra arma poderosa sempre utilizada pela equipe de Michigan.

Com a varrida sofrida, Detroit se tornou o primeiro time detentor da Copa Stanley a ser varrido na primeira rodada desde os Maple Leafs em 1952, coincidentemente pelos Red Wings. Outro fato desolador: o público que compareceu ao Arrowhead Pond pode ter visto a última partida de Igor Larionov na NHL, um fim nada justo para um dos melhores jogadores de hóquei de todos os tempos. Ele deseja continuar mais um ano, o problema é saber se aceitará uma significativa redução salarial.

Hockeytown terá um verão diferente, infelizmente. Os 110 pontos da temporada regular devem garantir Dave Lewis no cargo, mas o grau de tolerância agora está no limite. O gerente geral Ken Holland terá longos meses para pensar em mudanças, mas já adiantou que não serão muitas; o que faz sentido, já que, apesar da tragédia, o elenco é ótimo e vai ficar ainda melhor com a chegada do russo Igor Grigorenko e a exclusão de Luc Robitaille. A prioridade é cuidar da renovação de contratos dos agentes livres, em especial de Sergei Fedorov, que promete ser uma novela. Já na Califórnia, os Mighty Ducks tentarão provar que a varrida não foi obra do acaso. Os playoffs continuam, a vida continua... mas a ficha ainda não caiu.

Para quem quiser conferir novamente: esse filme estará na seção de épicos de sua locadora para os torcedores dos Ducks; na seção de terror para os Wings; e de comédia — intermináveis Quacks incluídos — para os neutros.

Eduardo Costa tem a primeira partida da série entre Wings-Ducks de 1999 gravada. Naquela vez a varrida foi favorável aos Wings.
IMBATÍVEL Defesas, defesas e mais defesas. E em triunfo, eis que o jogador mais valioso da série exibe o disco defendido (Jeff Gross/Getty Images - 16/04/2003)
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Página publicada em 24 de abril de 2003.