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7 de março de 2003
O pesadelo canadense está de volta

Por Marcelo Constantino

Tal qual em 2001-2002, o Montreal Canadiens está na corrida por uma vaga nos playoffs. Mas a situação de hoje é bem pior, o bloco dos oito que se classificam estão com uma boa vantagem à frente do time mais tradicional da NHL.

Depois do sonho alimentado ano passado, o pesadelo é que está de volta. Quase nada do planejado deu certo nesta temporada. A lista de decepções é grande, enquanto as surpresas positivas (que podem ser resumidas praticamente em Saku Koivu, Andrei Markov, Jan Bulis e Stephane Quintal) são poucas.

As esperanças que nasceram na campanha estelar de José Théodore (MVP da temporada e vencedor do Vezina) e na emoção da volta do capitão Koivu ao time depois de vencer um câncer, esbarraram na realidade: os Habs não eram tudo aquilo que se projetava e a campanha atual vem mostrando isso.

O time parece morto no gelo, sem confiança e sem esperança. Koivu tem recebido um papel muito superior ao que deveria, considerando que passou quase toda a temporada passada lutando contra o câncer. O resultado disso é que ele parece exausto atualmente. Não há mais química entre ele e Richard Zednik, os dois líderes em pontos do time.

O mês de fevereiro tem sido um pesadelo sem fim para os Canadiens e a baixa produtividade atual não poupa ninguém, seja ele Yanic Perreault, Doug Gilmour, Oleg Petrov e mesmo Koivu e Zednik.

Para piorar o quadro, Stephane Quintal, o defensor que vinha suprindo bem a ausência de Patrice Brisebois enquanto este esteve machucado - machucou-se também.

Salve-nos, Théodore! - Não tem jeito, o Montreal de hoje é um time de porte médio, se tanto, e a esperança é mesmo que José Théodore recupere a maestria do ano passado. Afinal, a ida aos playoffs e a posterior passagem à segunda fase deveu-se sobretudo a ele.

Talvez a maior diferença deste time de hoje para aquele que derrotou os primeiros colocados e favoritos Boston Bruins na primeira fase dos playoffs seja a confiança que havia no goleiro. Essa confiança desabou logo no início desta temporada, com atuações pífias do outrora MVP. Jeff Hackett ressurgiu das tumbas hospitalares e fez algumas grandes apresentações, fazendo com que a torcida e a gerência não se desesperassem com a situação do goleiro número um. A idéia era que a má fase logo passaria e que Théodore voltaria a liderar o time rumo aos playoffs.

A má fase não passou e é certo que os Habs têm perdido partidas que normalmente teriam vencido na temporada passada.

Times do quilate de um Colorado Avalanche, um Detroit Red Wings, um Dallas Stars e até mesmo os três canadenses, Vancouver Canucks, Ottawa Senators e Toronto Maple Leafs têm capacidade de sair de um placar desfavorável em um ou dois gols. Os Canadiens não. Eles não podem se dar ao luxo de ter um goleiro em quem não confiam. Se não é todo dia que um time grande vence a Stanley Cup com um Chris Osgood no gol, também não é todo dia que um time mediano chega aos playoffs com um goleiro que vaza em chutes defensáveis.

Quando o goleiro está num mau dia e você não tem um grande time, pode esquecer a partida que é derrota certa. Mas não é este exatamente o caso de Théodore. Ele tem feito grandes defesas. Defesas pontuais, uma aqui, outra ali. Por vezes, algumas numa mesma partida. Um período estelar, até. Mas logo vem um chute defensável que acaba passando, daí vem o efeito cascata.

Ao menos o goleiro admite que é um dos responsáveis, quando afirma: "Nós temos de jogar melhor, a começar por mim mesmo".

Na temporada passada ele teve 2,11 de média de gols sofridos e percentual de aproveitamento de defesas de 93,1%. Este ano esses números estão na casa dos 3,00 e 90%, respectivamente. Um gol a mais por partida é absolutamente crucial para um time como o Montreal.

Com a saída de Hackett, as atenções podem até se voltar para o novo reserva Mathieu Garon, que tem bons números nas míseras partidas que disputou nesta temporada. Seria o momento de tentar outro goleiro, nem que seja apenas para mudar alguma coisa? Não há mal algum, coloquem Garon e vejam como ele se sai. Não custa tentar.

Agora, é evidente que o técnico Claude Julien está sob pressão para escalar Théodore. Ele foi o MVP do ano passado, ele foi a principal razão do time ter surpreendido os favoritos Bruins nos playoffs seguintes, ele assinou um contrato que vale um conjunto de cheques que perfaz US$ 5 milhões por ano.

Normalmente é até plausível que você dê uma descansada mais longa para seu goleiro principal quando ele nitidamente não está correspondendo. Pergunte aos Red Wings, que têm feito isso com Curtis Joseph e já o fizeram, em escala bem maior, com Chris Osgood.

Só que as circunstâncias dos Canadiens não são normais, é hora de desespero. O time que tem mais títulos na NHL está para ficar de fora dos playoffs pela quarta vez em cinco anos.

Certa vez perguntaram a Michael Jordan por que o Chicago Bulls sempre buscava passar a bola para ele arremessar nos momentos mais decisivos das partidas, sabendo que todo e qualquer time adversário esperaria exatamente por isso. A resposta foi simples, algo assim: "Eu recebo mais que todos os outros, logo a minha responsabilidade é maior, e é para isso que eu sou pago."

É o caso de Théodore, em muito menor grau, claro. Ele é o goleiro número um e recebe um alto salário para os padrões do time. Ele deve assumir a responsabilidade. Bom, ao menos verbalmente ele tem assumido.

O goleiro que fez defesas de outro mundo para vencer a série contra os Bruins agora parece estar em outro mundo. E vai precisar de mais ainda do que a poção mágica do ano passado para conseguir colocar o Montreal nos playoffs. Uma verdadeira - e improvável - empreitada heróica.

Marcelo Constantino adora o Carnaval. Para viajar para bem longe de qualquer folia.
 
  O NÚMERO UM José Théodore é uma das grandes decepções desta temporada. Aqui ele descansa antes de uma partida contra o Boston Bruins, enquanto Patrick Traverse patina (Paul Chiasson/CP - 11/02/2003)
   
 
  O NÚMERO DOIS - Mathieu Garon tem bons números e pouquíssimas apresentações. Aqui ele leva um gol na
prorrogação contra o Buffalo Sabres, marcado por Miroslav Satan (David Duprey/AP - 19/02/2003)
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Página publicada em 5 de março de 2003.