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24 de janeiro de 2003
Considerações gerais sobre o Colorado Avalanche

Por Marcelo Constantino

Vou aqui bater pela enésima vez na tecla do "como é que pode um time com todo o talento do Colorado Avalanche estar tão mal?". Sim, também, não há como escapar. Afinal, estamos perto da parada para o Jogo das Estrelas, e o time ainda não decolou como esperado, não entrou definitivamente no grupo dos oito que vão aos playoffs.

Humberto Fernandes já tocou num ponto que parece ter conseqüências até hoje em Denver: a derrota de 7-0 para os Red Wings no decisivo jogo das finais de conferência de 2002, precedida pelo espalhafatoso lance "estátua da liberdade" de Patrick Roy no jogo 6.

O outro ponto que enxergo que parece estar contaminando os Avs é a famosa síndrome do "que saco é jogar a temporada regular". Há uma terceira hipótese, a de que eles estão cansados, depois de tantos anos chegando sempre às finais de conferência, mas essa não cola. Seus rivais Red Wings têm atuado bastante nos playoffs, possuem um bom número de jogadores mais velhos e seguem entre os líderes da Conferência Oeste.

Voltando à síndrome, esses jogos de temporada regular são realmente um tormento para um time que está acostumado a grandes batalhas pelo título, acostumado aos playoffs, séries de melhor de sete onde apenas um sobrevive. Nos últimos anos, precisamente desde 1995, Detroit e Colorado encaixam-se nessa característica. Nos playoffs, esses times não têm de ficar jogando toda hora contra Columbus e Nashville, por exemplo, e ainda contra aqueles times lamentáveis da Divisão Sudeste, com exceções para os Capitals e, talvez, os Hurricanes.

Assim é a temporada. São longas 82 partidas de uma maratona costurada para gerar a receita necessária aos times para pagarem os salários dos jogadores. Times como Avs e Wings naturalmente já se sentem nos playoffs na partida de estréia da temporada. Só que o Avalanche está exagerando no desleixo.

Quando a vontade é mínima, passa a ser insuportável jogar contra times que fazem forte marcação, torna-se difícil brigar para manter a liderança numa partida. Os Avs estavam e parecem ainda estar assim. Podem parecer brilhantes por um momento e logo perdem o foco.

Eles começaram mal em outubro e seguiram horríveis em novembro. Nada funcionava, e era nítido que a confiança dos jogadores estava indo embora. Peças importantes como Steven Reinprecht, Martin Skoula e Alex Tanguay sofriam disso claramente, e Derek Morris não estava se encaixando bem no time. Tony Granato entrou em dezembro, e o time melhorou bastante. Isso durou até mais ou menos o começo de janeiro, quando os goleiros começaram a fazer a diferença. Para pior.

David Aebischer e Patrick Roy fizeram partidas sofríveis recentemente, contra Panthers e Stars (em 11 de janeiro), respectivamente. Roy não faz uma temporada à altura de sua carreira vitoriosa e recordista e chegou a ser substituído na partida contra o Dallas.

"Todos nós temos de fazer um pouco mais", diz o goleiro. "Do meu ponto de vista, eu tenho de ser mais consistente. (...) Eu sei que muita gente está comparando minha performance com o ano passado, mas aquele foi o melhor ano da minha carreira."

Saiu do vinho para a água. Nesta temporada, nenhum shutout, percentual de defesa abaixo dos 90%, média de gols sofridos na casa dos 2,60. Se ele não retornar à sua maestria, um abraço para qualquer pretensão do Colorado. Se retornar, e o time fizer pequenos acertos, principalmente quanto à motivação e à confiança dos jogadores, tudo deverá estar resolvido, e o time segue rumo a mais uma disputa pelo título. Senão, o perigo de ficar de fora dos playoffs será cada vez mais real. Ou então de enfrentar um Dallas ou Detroit logo de cara, na primeira fase.

Este é o cenário atual, que não é nada animador: lutar para chegar aos playoffs e, caso consiga, enfrentar um dos maiores candidatos ao título logo na primeira série. Somente uma verdadeira escalada nesta segunda metade, algo no estilo do Vancouver Canucks de 2002, poderá levar os Avs a uma posição confortável, ou seja, entre a terceira e a sexta colocação geral na conferência.

O talento do Avalanche é o mesmo do ano passado, com pequenas mudanças, e isso é indiscutível. Se duvidar, em tese é até melhor. Vejamos: no gol, é a mesma coisa. No papel, o time tem uma grande defesa, mas no gelo é um horror. As péssimas partidas de Rob Blake, Adam Foote e Greg deVries no começo da temporada contribuíram, e muito, pra um saldo negativo que está sendo pago até hoje. Estão bem melhores agora, e Foote vem sendo o melhor defensor da equipe. Derek Morris, a despeito das controvérsias todas de sua troca por Chris Drury, é um incremento à já excelente defesa do time do ano passado.

No ataque, o time tem Peter Forsberg, Dean McAmmond, Jeff Shantz e um Milan Hejduk — o melhor do time — em plenas condições de jogo, no lugar de Drury e Stephane Yelle. Evidentemente, é um enorme avanço em relação à temporada passada, mesmo que McAmmond e Shantz não signifiquem grande coisa.

Enfim, este time é muito mais talentoso do que sua classificação demonstra. Tudo bem, isso não quer dizer muita coisa, o San Jose também é e está bem pior que o Colorado, numa situação absurdamente crítica. Mas isso indica que a recuperação depende apenas do time, não de uma troca que agregue mais talento ainda — algo que, naturalmente, todos voltam a cogitar, em se tratando de Pierre Lacroix e da proximidade do dia-limite de trocas.

O primeiro reencontro contra o Detroit, na quinta-feira passada, era um ótimo momento para o começo de uma real virada. Mais uma chance desperdiçada. De qualquer forma, chegando aos playoffs, nenhum time irá subestimá-los.

Em tempo: O colunista Terry Frei, baseado em Denver, mas que contribui freqüentemente com a ESPN, soltou a seguinte pérola num de seus últimos artigos: "Se (Darren) McCarty assinasse como agente livre com o Colorado, ele seria um dos jogadores mais populares da cidade em 15 minutos". Uma proposição absurda só poderia mesmo gerar uma conclusão absurda.

Marcelo Constantino ainda acredita que o Avalanche chegará aos playoffs. Já o San Jose Sharks deve ser a mais incrível ausência já vista nos últimos anos.
ESFORÇO NÃO RECOMPENSADO Dan Hinote dá um duro tranco em Dmitri Bykov e o joga para o banco dos Wings, durante o primeiro período (Marc Piscotty/Rocky Mountain News)
 
ARTIGO SOBRE O DETROIT RED WINGS
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Página publicada em 22 de janeiro de 2003.