Por
Eduardo Costa
Todo recrutamento da NHL segue a mesma rotina. Assédio da imprensa,
entrevistas, camisa entregue ao recruta pelo gerente geral da equipe,
dinheiro à vista, etc. Bem, isso se o atleta for selecionado
nas rodadas iniciais. Sendo selecionado na sétima rodada, 210.ª
escolha geral, é bem provável que, ao descer as escadas,
o jogador não encontrará nenhuma câmera da CBC,
TSN, ESPN ou que seja. É bem possível também que
o gerente geral da equipe que o escolheu já esteja bem longe
e que ao invés de uma camisa novinha ele receba um broche ou
até mesmo nada. Isso, é claro, considerando que o jogador
esteja presente. E considerando que 209 jogadores foram selecionados
antes dele, a possibilidade de um dia atuar na NHL se tornam bem remotas.
A não ser que esse jogador tenha um período pós-recrutamento
impressionante.
Então, vamos lá. Primeiro, liderar, mesmo com apenas 18
anos, uma equipe pequena, Timrå, da segunda divisão sueca
(Allsvenskan) rumo à divisão de elite (Elitserien). Ofuscar
os gêmeos Sedin nas categorias de base da seleção
sueca. Antes mesmo de atuar uma única partida na primeira divisão,
é convocado para atuar na seleção principal de
seu país. Com 46 pontos em 47 jogos, é eleito o novato
da temporada 2000-01. Participação no Mundial adulto.
Na temporada seguinte, manter os bons números e ser apenas um
dos três jogadores fora da NHL a ser convocado para a seleção
Sueca nos Jogos Olímpicos de Inverno em Salt Lake City.
Depois disso tudo ficou fácil para Henrik Zetterberg assinar
um contrato de três anos com o Detroit Red Wings. Não sem
antes o Timrå aposentar seu número 20 e colocá-lo
no alto do Timrå Isstadion (lembrando que, na época, Hank
tinha apenas 21 anos) e receber o puck de ouro como jogador
mais valioso da Elitserien, unindo-se a Mats Näslund,
Håkan Loob, Kent Nilsson, Patrik Sundström e Peter Forsberg,
como os atletas que um dia venceram o Guldpucken.
Se há algo a ser comemorado pelos torcedores dos Wings nessa
temporada de final trágico é a "descoberta"
de Zetterberg. O asa esquerda/central de 22 anos liderou os novatos
da NHL com 44 pontos (22 gols, 22 assistências) e pode ser o primeiro
jogador dos Red Wings a vencer o Calder desde o goleiro Roger Crozier
em 1965. Além disso, é o primeiro Red Wing finalista do
troféu desde que Nicklas Lidstrom terminou em segundo lugar em
1992 Pavel Bure foi vencedor naquele ano.
Sua habilidade com o disco e visão de jogo já o fez ser
comparado a Peter Forsberg, quando jovem, pelo compatriota Mats Sundin.
Zetterberg surpreendeu ao demonstrar responsabilidades defensivas, e
quando foi colocado na mesma linha de Pavel Datsyuk e Brett Hull deslanchou
de vez. A linha dos "dois garotos e uma cabra velha" foi uma
das mais quentes na segunda metade da temporada e com ela os Wings venceram
mais uma vez a Divisão Central, brigando até a última
partida pela melhor campanha na Conferência Oeste. Durante o mês
de março, Z-man somou oito gols e 15 pontos em 16 jogos.
Como a maioria dos jogadores oriundos do Velho Conttinente, o maior
medo da direção técnica dos Wings era o porte físico
de Zetterberg e como ele se adaptaria ao tamanho reduzido da superfície
de gelo e da linha vermelha. Quanto ao peso, a receita foi simples,
segundo o próprio Zetterberg: "Comer, comer muito, até
cansar". Rapidamente chegou a um peso compatível com a sua
altura (82kg para 1,83m). A adaptação ao tamanho do gelo
torna-se fácil quando se é craque.
Os Jogos Olímpicos do ano passado ajudaram bastante. Enfrentar
os melhores atletas do mundo e atuar ao lado de alguns deles também
chamou a atenção dos olheiros dos Wings. Tinham em mãos
um excelente jogador e por uma mísera escolha de sétima
rodada. Por falar nas escolhas de míseras rodadas, vale parabenizar
os olheiros dos Wings no Velho Conttinente, encabeçados por Hakan
Andersson, que parecem compensar os "malas" normalmente selecionados
pela equipe nas escolhas mais altas e as de primeira rodada negociadas.
Vladimir Konstantinov, Nicklas Lidstrom e Sergei Fedorov. Todos selecionados
abaixo da 50.ª escolha geral em 1989. No mesmo recrutamento os
Wings selecionaram na primeira rodada Mike Sillinger. Em 1990, Keith
Primeau custou a terceira escolha geral, acima de Jaromir Jagr, Keith
Tkachuk, Martin Brodeur, Doug Weight, Sergei Zubov, Peter Bondra e Derian
Hatcher.. A título de comparação, Primeau somou
apenas 15 pontos em sua estréia na NHL. Zetterberg conseguiu
44 esse ano. Algumas temporadas antes, Joe Murphy foi o primeiro selecionado
geral no recrutamento. Com os Wings, foram medíocres 32 pontos
em 90 jogos (durante quatro temporadas).
A tradição de sucesso com escolhas baixas parece se manter.
Maxim Kuznetzov, selecionado na primeira rodada de 1995, não
deixou saudades ao ser trocado para os Kings recentemente. Já
outro defensor, Dmitri Bykov, oitava rodada de 2001, é tido como
uma grata revelação em Detroit. Jiri Hudler e Igor Grigorenko
possuem atributos indicando que também serão escolhas
baixas de sucesso na NHL. Com isso muitos torcedores do Detroit não
se preocupam pelas escolhas altas dadas aos Kings em troca de Mathieu
Schneider. Após a escolha de Steve Yzerman, em 1983, os Wings
parecem não saber o que fazer direito com elas.
Atuar em uma equipe cheia de estrelas e com tempo reduzido de gelo,
em comparação com Rick Nash ou Barret Jackman os
outros dois candidatos ao Calder , poderia prejudicar Zetterberg,
segundo os principais analistas norte-americanos, os mesmos que indicam
Jackman como principal rival dele na corrida pelo Calder. Mas conseguir
um lugar em umas das três principais linhas da equipe atual campeã
da Stanley Cup já fala por si só.
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Eduardo Costa pensa que uma partida ao vivo de playoffs, com algumas
cervejas bem geladas, é o verdadeiro significado do paraíso. |
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HOMENAGEM À ALTURA
No Timrå, o jovem Henrik Zetterberg teve sua camisa 20 aposentada
e erguida ao topo do Timrå Isstadion (Arquivo The Slot BR) |
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BEM-VINDO, HANK Hockeytown
recebeu de braços abertos sua mais nova arma. Dotado de muita
habilidade, Zetterberg atuou em quatro posições diferentes
durante a temporada. Só faltou ir pro gol (Ted S. Warren/AP
- 15/01/2003) |
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