Por: Eduardo Costa

Adler Mannheim

Campeão da Copa da Alemanha, melhor time da temporada regular e dono de uma campanha impecável nos playoffs. E pensar que isso tudo isso foi obtido um ano após a pífia temporada de 2005-06, quando o Adler Mannheim terminou em 10º lugar (em uma liga com 14 times), ficando mais perto do rebaixamento do que o grupo que foi à pós-temporada.

Um papel muito baixo para o time que, desde a criação da DEL, em 1994, foi o que mais vezes foi campeão — 1997, 98, 99 e 2001. E mais vergonhoso ainda se lembramos que foi a primeira vez que a equipe ficou de fora da pós-temporada do campeonato alemão (contando a Bundesliga, antecessora da DEL), após 25 anos de presença nos playoffs. Sem dúvida, um opróbrio — seja lá o que isso signifique.

Para não repetir a deprimente temporada anterior, o time foi atrás de reforços. E acertou em cheio em suas duas maiores apostas.

Do rival Nünberg Ice Tigers chegou François Methot. O quebequense terminaria a temporada como líder do Adler em pontos (57 em 52 partidas), repetindo o feito da temporada anterior, quando havia sido o artilheiro do time de Nuremberg. O outra aposta foi Nathan Robinson. A torcida dos Red Wings só deve se lembrar desse atacante porque ele — provavelmente — foi o primeiro negro a defender o time em uma partida da NHL. Robinson ainda vestiria a camisa do Boston Bruins, mas, assim como nos Wings, teve poucas chances e não pontuou em nenhuma delas. Nathan acabou achando seu lugar no velho continente. O central de 25 anos terminou a temporada como segundo maior pontuador da equipe, e, como veremos em alguns parágrafos abaixo, ele acabaria sendo decisivo nas finais da DEL.

Outra contratação foi a do goleiro da seleção alemã, Robert Müller. Mas o atleta foi diagnosticado com câncer em Novembro, uma notícia que, óbvio, chocou o hóquei alemão. Enquanto Müller revia recebia quimioterapia (bem sucedida), o time foi atrás de outro goleiro que pudesse colocar o time no topo. Jean-Marc Pelletier, de curta carreira na NHL, foi o eleito. E ele fez sua parte.

Falando em NHL, a quantidade de figurinhas carimbadas que já penaram na mais famosa das ligas e participaram dessa campanha do Adler foi impressionante: Blake Sloan, Pascal Trepanier, Jeff Shantz, René Corbet e Colin Forbes, para citar os mais conhecidos.

E esse contingente norte-americano foi mais do que importante durante toda a temporada. Corbet, por exemplo, é capitão do time e ídolo em Mannheim. Shantz, assim como já mencionado Robinson, foi um atleta de importância ímpar nos playoffs.

Outro ponto forte da agremiação esteve nas arquibancadas. Mas isso não foi uma exclusividade do time de Mannheim.

Dos dez clubes que mais levam torcedores às suas respectivas arenas no hóquei europeu, quatro (Kölner Haie, Adler Mannheim, Hamburg Freezers e o Düsseldorf Metro Stars) fazem parte da DEL. Apenas para grau de comparação, a Finlândia, onde o hóquei é o esporte mais popular, só possui um time nesse Top 10. A Rússia, onde o hóquei é o segundo esporte de predileção, também conta com um único representante nessa lista, assim como a República Tcheca.

E a atuante torcida do Adler Mannheim lotou a belíssima SAP Arena em cada partida dos playoffs. O primeiro desafio foi contra o Frankfurt Lions, um inimigo histórico do time de Mannheim. Apesar da série ter sido vencida por 4-1, três dessas vitórias do Adler foram por um gol de diferença.

A seguir, o mesmo adversário da fantástica final da copa alemã da apareceu no caminho.

O Kölner Haie, time mais vitorioso da era moderna do hóquei alemão, havia feito uma campanha apenas mediana, mas contava com o apoio de sua fiel e fanática torcida, e tinha em seu elenco o maior pontuador da DEL na temporada — o veterano canadense David McLlwain. Mas não foram obstáculos para Mannheim, que varreu o time de Colônia e garantiu sua vaga na super-final.

Só restava um obstáculo. E era outro velho conhecido. O Sinupret Ice Tigers (antigo Nünberg Ice Tigers), da cidade de Nuremberg, subiu para a divisão de elite em 1994 e não mais saiu. Historicamente seu melhor resultado foi em 1999, quando foi o melhor time da temporada regular e chegou até a final da DEL, onde encontrou o mesmíssimo Adler Mannheim. Os Ice Tigers acabaram vendo seu rival e erguendo a taça em plena Nürnberg Betriebs Arena.

Agora eles voltariam a se encontrar em uma grande final, e com os papéis invertidos: Adler, melhor time da temporada regular e favorito absoluto; Ice Tigers, azarões. A chance ideal de uma vingança cruel e sanguinária. Dessa vez seria o capitão do Sinupret, Christian LaFlamme, que levantaria a Copa em plena SAP Arena. Bem, adivinhem, não aconteceu.

Os Ice Tigers mostraram resistência apenas na primeira partida da melhor de cinco. O esforço do goleiro Jean-François Labbé, do defensor Jame Pollock (jogador mais valioso do time na temporada) e de Petr Fical — que empatou a partida quando faltavam seis segundos para o final do tempo regulamentar — de nada adiantou, já que Colin Forbes fez, na prorrogação, o gol que deu a vitória para o time de Mannheim.

No embate seguinte, em Nuremberg, os anfitriões foram goleados por 6-2. René Corbet marcou duas vezes antes mesmo dos dez minutos de jogo. Os 8.238 pagantes viram tudo ruir de vez quando Sven Butenschön e Jeff Shantz alargaram a vantagem para 4-0. No terceiro período, um golpe ainda mais doloroso quando o antigo ídolo dos Ice Tigers, François Methot, fez o quinto. Shantz fecharia a conta. Jean-Marc Pelletier não saiu com o shutout da partida, porém o mais importante estava bem próximo. Faltava uma única vitória.

Antes de falar do jogo 3, vale a pena comentar a atitude dos torcedores de Mannheim. Tenho o hábito (bom? Ruim?) de usar fones de ouvido enquanto assisto a jogos de hóquei, para poder "entrar" no clima, e poucas vezes me impressionei tanto com uma torcida, como nesse jogo 3 das finais da DEL.

Durante toda a transmissão os seguidores do Adler Mannheim não pararam de cantar — e não foram aqueles chatos, manjados e cansativos "lets go fulano". Eles criaram belas versões "hoqueísticas" para diversas canções folclóricas germânicas. Vale uma pesquisa no nosso bom camarada YouTube, para conferir a platéia do Adler apoiando sua equipe.

E esse apoio constante não cessou nem mesmo quando André Savage marcou para o Sinupret com um minuto de jogo. Todos na arena pareciam prever que, rapidamente, o placar seria favorável ao seu time.

A virada veio através de dois gols de Nathan Robinson. Em ambos os tentos ele não precisou mais de que se posicionar bem para poder fazer seu serviço. Ainda no período inicial, Shantz aumentava. O ex-atleta dos Blackhawks e do Avalanche foi dominante durante toda a pós-temporada e, com mais esse gol, ele assegurava de vez a honraria de jogador mais valioso dos playoffs.

A agremiação de Nuremberg colocou um pouco de drama na partida quando o veterano Martin Jiranek diminuiu a distância para um gol. Mas um tento em vantagem numérica de René Corbet e outro do jovem alemão Christoph Ullman acabaram com as esperanças dos visitantes. Com o 5-2, não havia mais o que fazer por parte do Sinupret.

A torcida ainda teve a agradável, e emotiva, surpresa, de ver o goleiro Robert Müller, aquele mesmo que havia sido diagnosticado com câncer em Novembro, substituindo o titular Pelletier nos momentos finais do cortejo. Müller, mais do que ninguém, merecia mesmo estar no gelo quando o sistema de som da SAP Arena soltou o Adler Mannheim, Deutschen Meisterschaft 2007!

Elenco campeão

Goleiros: Robert Müller, Jean-Marc Pelletier, Danny aus den Birken e Ilpo Kauhanen.

Defensores: Martin Ancicka, Francois Bouchard, Sven Butenschön, Christopher Fischer, Benedikt Kohl, Felix Petermann, Stephan Retzer, Blake Sloan e Pascal Trepanier.

Atacantes: Ronny Arendt, Sachar Blank, Fabio Carciola, René Corbet, Rico Fata, Colin Forbes, Rick Girard, Jason Jaspers, Marcus Kink, Eduard Lewandowski, TomᚠMartinec, Frank Mauer, Francois Methot, Nathan Robinson, André Schietzold, Jeff Shantz e Christoph Ullmann.

Eduardo Costa aproveita que está escrevendo sobre a liga tedesca, e parabeniza o germânico editor-chefe Alexandre Giesbrecht por mais uma grande temporada de grandes colunas e belas capas.
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Página publicada em 4 de julho de 2007.